segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Dia 30

Fala camaradinhas! Todos firmes?
Hoje é dia 30/11, "segundona", e o ano já está quase acabando.
Eu estive planejando postar aqui um texto muito especial escrito por Caio Leonardo Bessa Rodrigues, então nessas últimas semanas entrei em contato com ele, através do meu quase útil Orkut, enfim, pedi ao Caio para publicar seu texto aqui no Blog.
O texto de que tanto gostei vai lhe fazer perguntas.

Aguardem.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Embalagem: o Brasil por dentro e por fora

(Tamy Fernandes)

Não é de se espantar que o presidente Lula venha, e cada vez mais, ganhando força político-diplomática pelos países que por muito tempo mantiveram suas portas fechadas para qualquer tentativa de diplomacia. Por ter caminhado das bases operárias até a presidência do Brasil, Lula tornou-se um ícone de superação e boa vontade entre os brasileiros.
Quase automaticamente, o carnaval, o carisma e o futebol são associados ao Brasil. Visto de fora, o "país da alegria" parece levar a vida no embalo de uma rede. E assim visto, o Brasil seria o país perfeito para as Olimpíadas de 2016.
O incentivo ao esporte é certamente necessário, contudo, fazer do Rio de Janeiro a sede olímpica, não significa que todas as crianças carentes, ou não, receberão suportes e infraestruturas esportivas em suas escolas e cidades. A ideia de que a economia gerada pós-olimpíadas favorecerá inteiramente o país é um tanto quanto utópica. Certamente os cofres brasileiros serão abastecidos e a economia crescerá, porém as feridas inflamadas que sempre existiram no âmbito interno do Brasil não serão estancadas.
A pobreza, a violência e a contrastante desigualdade social brasileira já tornaram-se paisagem natural e costumeira do país. O convívio diário com o crime já virou rotina.
Com tantos problemas sociais, econômicos e culturais a serem resolvidos internamente, a saída é investir no carisma brasileiro e garantir que " o Brasil é o país do futuro." Se tal futuro for o ano de 2016, temos pouquíssimo tempo para moldar esse Brasil do presente. Em cinco anos teremos de encontrar os curativos para as feridas que existem no sistema educacional brasileiro, no sistema de transporte público, no sistema de saúde e moradia, e tantos outros sistemas falhos do país.
O Brasil é como um livro pintado lindamente por mãos habilidosas, provido de uma capa dura e resistente, mas com um conteúdo por trás da capa inteiramente frágil e mal escrito.
Inegavelmente 2016 será um ano de muitos sorrisos e conquistas, contudo, um país não se faz só de sorrisos e infelizmente, 2016 não é daqui a quinhentos anos.


domingo, 22 de novembro de 2009

Papai-noel de fardo pesado

Todo fim de ano é a mesma coisa. Como são repetitivos os movimentos!
Antes de aflorar dezembro já piscam as luzes vermelhas, amarelas e verdes do natal. E as crianças, ah sim, as crianças choram quando um velho barrigudo vestido numa roupa vermelha, e suada, se aproxima com um saco cheio de doces melados. As mães não deveriam obrigar seus filhos a tirarem fotos com aquele homem grande e assustador. Aliás, as mães não deveriam mimar tanto suas crianças.

Quando a educação dos filhos baseia-se na lei do bom-comportamento, as coisas desandam. Os pais têm de gastar muito dinheiro no natal, e depois no aniversário, e depois no dia-das-crianças, e depois aqui e depois alí. E se não gastam, as crianças choram. As crianças choram quando são crianças. Quando adolescentes, elas (as crianças crescidas) usam e abusam do "eu odeio vocês!''.

E lá se vão os pais odiados gastar mais dinheiro com suas crianças rebeldes. Mais do que qualquer sentimento, eu sinto pena desses pais. Uma pena com uma pitadinha de desapontamento. Amar um filho é diferente de criá-los tão soberanos. Dar á eles todos os brinquedos da loja, ou um celular quando só têm oito anos de idade não traduz o amor.

Vejo hoje pais selados e encurralados. Vejo hoje filhos com as rédeas nas mãos. Os adolescentes estão mais complicados que manual em chinês. As crianças mais mandonas que patrão recém nomeado. Os pais desses bichos indomáveis precisam de colo e cafuné, e muitas pílulas para dormir.

Mas eu estava falando do natal. O natal. É nessa época que o capitalismo grita de felicidade. E por falar em grito, uma menina chamada Rayssa de apenas sete anos, no natal passado mandou-me uma carta pedindo uma cesta básica ou então um panetone de chocolate. Rayssa pediu uma cesta básica ou um panetone de chocolate.

Eu não sei se existe papai-noel onde Rayssa vive. Mas eu sei que ela não vai pedir um celular da última geração esse ano, e sei também que Rayssa não vai odiar seus pais quando estes lhe negaram uma ida á "balada".

Que vocês tenham um bom natal... e filhos iluminados.


T.F

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Alguns poucos

Desaparecer.
Desaparecer é tudo o que voa, escoa e some. Tudo que cai e não levanta. Que sobe e nunca mais desce. Desaparecer é o que todos fazem.
Diferentemente de tudo o que é descartável, os que dasaparecem se vão sem despedidas, e o que sobra são suas imagens há muito queridas e amadas. Quem desaparece, de certa forma, fica nos machucando dia após dia. Nunca vamos sentir um amor tão dolorido quanto o amor ao desaparecido.
Demore o tempo que for: todos desaparecem.
Desaparecer é uma tarefa para poucos, só os mais queridos desaparecem. Querer bem é complicado e tão raro que chega a ser desconhecido. Desconhecidos. Desconhecidos são admiráveis porque não os conhecemos. Mas estes também desaparecem.
Aquele "Carpe Diem" nunca funcionou comigo. Sempre sentia um frio na barriga quando pensava nos meus queridos futuros desaparecidos. De imadiato eu me lembrava daquela dor no peito, já antiga, que me tomou por inteira em 2005.
Mais difícil que desaparecer, é esquecer. É bom treinar ao longo da vida. É bom acostumar seu coração aos ocasionais desaparecimentos que virão. Vir e ir. Nunca gostei de dizer "tchau". Acho uma verdadeira interrupção de afeto. Meu carinho por alguns é tão grande que chego a transbordar em alegria quando os encontro no mesmo chão que eu piso.
Desaparecer.
Que verbo destruidor de sorrisos é esse?.

"Para o Mauro... que desapareceu."
T.F

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Demonologia

"Insônia não é definida pela quantidade de horas que uma pessoa dorme ou quanto tempo leva para cair no sono. Indivíduos geralmente variam em suas necessidades de sono. Insônia pode causar problemas durante o dia como cansaço, falta de energia, dificuldade de concentração e irritabilidade."
Estou acordada desde ás 4 da madrugada. Até agora, são aproximadamente 21 horas de pé.
Preciso escrever.
De madrugada, quando tudo é silêncio e paz, eu fui até a estante de livros, tirei de lá Demonologia, de Rick Moody. É um livro muito interessante - apesar de não muito conhecido. Nele Mooddy reuniu treze contos que trazem á tona os "demônios" de toda gente civilizada desse mundo. Ao mesmo tempo trágico e irônico, este livro questiona, de forma inteligente, a moral estabelecida, abrindo, ferindo e levantando questões que o senso comum prefere ignorar. É isso que estava escrito na sinopse.
Quando o comprei, eu estava caminhando pelo centro da cidade vestindo um agasalho preto e grosso. Eu não estava em um dos meus melhores dias.

Era um mercado sujo e tumultuado, era lá que estava o livro, no final de um corredor estreito e mal cheiroso. Cinco reais. Era só isso que eu tinha no bolso: uma nota de cinco reais.
Quando cheguei no final do corredor, uma moça de olhos verdes me encarou, - certamente ela estava com muito calor pois nunca estive em lugar mais quente que aquele final de corredor. Nem me dei ao luxo de olhar os livros que estavam em uma mesa, só perguntei á ela que livro eu poderia comprar com cinco reais. Com um certo espanto no olhar, a moça me trouxe um livro verde claro com um pacotinho de balas coloridas na capa. "Esse aqui." Rick Moody, eu lí. Já tinha visto aquele nome em algum lugar. Lembrei de Tempestade de Gelo, sim, ele escreveu a obra que virou filme. Tirei a nota do bolso e levei o livro. Ótimo, agora eu só precisava chegar em casa e tentar dormir um pouco.
Cheguei uma hora depois, entrei no meu quarto e joguei o livro na estante de madeira perto da minha cama. Deitei e dormi.
Mas voltando ao dia de hoje: há muito esquecido, o livro de Rick Moody foi resgatado por mim ontem de madrugada numa tentativa desesperadora de me concentrar em alguma coisa.
Fiquei um tempo olhando a capa. É uma capa tão vazia de sentimentos que chega a ser mágica.
Fui até a última página, 287, sim, 287 páginas. Um livro de contos, 13 contos em 287 páginas.
Começei. Era interessante. O primeiro conto fazia uma crítica á moral do casamento. O segundo á moral do lucro. O terceiro ao McDonald's? Enfim, são 13 contos. Treze tapinhas na cara.
Tapinhas na cara do senso comum. Tapinhas suaves, mas ainda sim são tapinhas.
Isso é tudo que estou com vontade de escrever. Quero tomar um banho e ir sentar na calçada até ás 2 da madrugada, voltar pro quarto, ouvir In my Dreams e continuar de pé até semana que vêm.

Tchau camaradinhas, durmam bem, muito bem.
T.F

terça-feira, 3 de novembro de 2009

De volta.

Depois de cinco dias de palavras ausentes, aqui vão elas novamente, enfim. Gostaria de escrever todos os dias. Mil palavras por dia. Um café e quinze minutos. Porém, e esse porém me entristece, arranhar as teclas desse meu teclado preto já não é mais meu prazer cotidiano, - não porque não quero, mas porque o tempo não me deixa sentar mais em minha cadeira giratória, e não me deixa perder a cabeça nas palavras. Por quê? Simples: ou sigo o relógio ou não sigo o mundo. E que mundo! Todo complicado e apressado. Ninguém senta, ninguém conversa, ninguém ouve uma música, ninguém fuma um cigarro.
Sem mais delongas. Eu só queria dizer que estou fazendo o possível para reviver meus momentos de paz-escrita e paz-pensada.
Tenham paciência humanos.

E por falar em paz: fiquem com ela!
T.F

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A rua

(Tamy Fernandes)

Sou louca pelas pessoas loucas.
Loucas para viver, loucas para falar, loucas para sentir, loucas para olhar, loucas para amar.
Confio nas pessoas que ardem, ardem, ardem como fogos de artifício no céu vazio.
Gosto das pessoas viradas ao avesso. Amo suas almas e suas cabeças.
Sou amante das ruas. Do asfalto, do cimento, dos tijolos e dos operários suados e tristes.
Amo os olhos infantis e toda sua inocência. Gosto dos bagunçados, dos sem planos, dos sem relógio, dos sem teto, dos sem ódio, dos sem dinheiro, dos sem sistema, dos sem isso e dos sem aquilo.
Não tenho pressa. Não rastejo nem corro.
Sou amante das ruas e de seus habitantes andarilhos. Pés de vento.
Amo as palavras e seus falantes. As palavras corrosivas. Os livros. O cérebro em forma de letra.
Sou amante das ruas e dos pés que a pisam noite e dia. Dia e noite. De tarde, a rua arde.
Amo os pés.
Gosto de quem anda, de quem não senta, de quem não lamenta olhando o umbigo. Amo os sem regras. Os poetas, os artistas, os desgarrados.
Sou amante das ruas sujas e verdadeiras. Das calçadas estreitas. Das lombadas feita de gente.
Sou amante das ruas e por isso faço o contorno na avenida e amo todos os rostos e cheiros que sinto.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Empregadinho de poeta

Poetinha vagabundo.
Não tira os pés da sandália, não abotoa a camisa, não lava as calças.
Nem dorme, nem sonha, nem levanta e nem senta.
Poetinha vagabundo que não se aposenta.

Joga-se na cadeira ( é de madeira) e acende um cigarro.
Deixa a janela fechada que tem gente á espreita.
Aproveita e estica essas pernas cansadas
que eu mesmo pego tuas sandálias e guardo.

Põe o violão maltratado no colo e arranha essas cordas
com esses teus dedos manchados de tinta.
Deixa que as cinzas desse teu cigarro
eu mesmo varro.

Abotoa essa camisa que teu peito fica vermelho depois do meio dia.
Poetinha vagabundo que nem me dá ouvidos.
O violão cansado, caindo e chorando, e esse teu afago de poeta
preocupado.

Deixa derreter o gelo desse teu uísque, velho afobado!
E tira o violão de cima da mesa que o luger dele
é no seu colo!
Poetinha vagabundo. Seca o copo e enxuga os olhos.

Agora deita e dorme homem, que ninguém para
em pé com tanta coisa na cabeça. Descansa!
Amanhã você me fala Vinicius, mas agora me obedece
que você já não é mais criança.

(Tamy Fernandes)



domingo, 11 de outubro de 2009

Fotos novas! Sofrimentos velhos!

Já sabem, é por aqui: www.flickr.com/tamy_fernandes

Não vejam só com os olhos.
O nome dela é Maria. É brasileira. Filha de pais escravos e mãe de cinco crianças magras e sujas.
Quando pode, coloca um quilo de feijão na panela. Mas quando as coisas ficam difíceis, e as cinco criançinhas choram de fome, Maria pensa até mesmo em roubar. Não dinheiro, nem o povo, nem os cofres. Mas só um quilo de feijão. Só para enganar as bocas famintas de suas crianças.
Mas no mesmo instante Maria recua, ela sabe, todos sabem: quem rouba feijão vai preso. E ficar atrás das grades, com cinco crianças para criar, é só o que Maria não quer. Então ela tem de esperar até que alguém bata a sua porta e lhe entregue um quilinho de feijão. Mas isso nunca acontece.
Aí Maria precisa pôr seus cinco filhos sofridos nas ruas de São Paulo, pedindo dinheiro para comprar comida. E ela os orienta para que tomem cuidado com os carros, que fiquem atentos ao trânsito, é perigoso, e ela sabe disso.
E lá vão os cinco pequenos. Mas são pequenos e têm medo. Os carros voam, os sinais mudam de cor, e as crianças choram. O mais corajoso tem apenas 8 anos. Já alcança o vidro do carro. Mas os motoristas são mais rápidos que aquelas mãozinhas encardidas, e os vidros, sempre blindados, não descem. "Essas crianças acomodadas! Podiam estar estudando se quisessem, podiam ter uma vida melhor se quisessem, podiam até mesmo trabalhar futuramente se quisessem!". Mas é claro que as crianças da Maria não querem nada disso! Elas gostam de sentir o estômago vazio todos os dias, e tocar o asfalto com os pés descalços, e certamente não têm tempo para essa história de estudar.
Os pequenos, todos cansadinhos, voltam para os cuidados da Maria. Mas ela também está muito cansada. Todos estão muito cansados. Marias e Josés, todos muito cansados. É uma pena, não? Se todos eles não estivessem tão cansados assim, poderiam até aproveitar esse Brasil da ordem e do progresso, não? É uma pena sim, estarem tão cansados esses Josés e Marias e todas as suas criançinhas.

(Tamy Fernandes)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

(Tamy Fernandes)

Numa tarde de quarta-feira, entre 13:40 e 17:00, enquanto caminhava despretenciosamente pelas ruas e calçadas da cidade - como sempre faço toda quarta-feira -, resolvi contar por quantos "capitalizados" e por quantos "marginalizados" eu passava. Queria contar todos aqueles rostos sem ter de debruçar-me sobre uma mesa e traçar escalas e gráficos aqui e alí.
Logo na primeira rua, contei 1 cachorro vira-lata e 2 maltrapilhos tão sujos quanto o cão. E que engraçado né camaradinhas: os 3 reviravam o mesmo lixo.
Três ruas abaixo e eu já havia contado mais de 20 capitalizados. Parece muito, mas muito mesmo, foram os números de crianças descalças perambulando as ruas com caixinhas de doces nas mãos. Não camaradinhas, elas não estavam comendo os doces, não mesmo! Havia também um senhor de uns aparentes 70 anos, que sentado num meio-fio, resmungava algo para sí mesmo. É claro que ele não falava em voz alta. Os anos em que ficou gritando, pedindo socorro, lhe feriram a garganta. Agora, os lamentos seguem em voz baixa. E quem quiser ouví-los, terá de encostar a orelha bem perto daquela boca faminta, e terá além do mais, que se curvar, porque o homem de tão sofrido já pendia a cabeça corpo abaixo. Pobre homem! Ele já sabe que a burguesia não se curva.
Quando passei por ele, olhei bem para o seu rosto e, acreditem, tinha cor de terra pisada, - e não preciso dizer de quem foram os pés que marcaram o rosto daquele homem, sim?.
Eu já estava andando por mais de 1 hora. E como era de se esperar, eu já havia perdido a conta de quantos rostos indiferentes haviam passado por mim. Foram tantos, que... ah, é uma pena!
Se calculado, - e vamos tentar os números, já que as imagens por sí só não comovem á ninguém -, o número de desolados multiplicado pelos dias da semana, vamos obter um número de aproximadamente, 35 seres humanos maltratados de segunda á segunda. E, multiplicando isso por 365 dias, tenho certeza que o número ultrapassa o valor do último carro importado, da mensalidade da escola, das bolsas e carteiras de couro, do tapete italiano...sim sim.
Estava muito quente hoje, não? Mas tinha uma mulher com um suéter vermelho de lã puxando um carrinho de ferro cheio de papelão. E ví também um homem deitado numa porta com uma manta grossa cobrindo o rosto. Mas estava muito quente hoje, não?
Não andei até ás 17:00. Perambulei até ás 15:45 exatamente. Comprei uma garrafa de água e fui pra casa. E, apesar de não morrer de amores pela matemática, eu fui fazendo meus cálculos.
Talvés seja essa a sacada: os números. As pessoas gostam de números. Literalmente.

sábado, 3 de outubro de 2009

Sr. Dean

(Tamy Fernandes)

Quando dizem que a estrada é a vida, a gente nem dá bola, até que um dia, na estrada, aparece alguém pra te fazer acreditar de uma vez por todas nisso. Chega a ser engraçado - e fascinante.

Quem diria que num sábado tão sem graça como o de hoje, algum homem de 50 anos fosse te dizer que Dean Moriarty passou naquela estrada um dia pedindo carona, de calça jeans e uma camiseta branca? Ah, e como ele botava fé naquelas palavras!

Sentado alí, num tijolinho encardido, fumando um cigarrinho de palha, os pés numa sandália de couro marrom, calças folgadas, camiseta rasgada, e uma cabeça cheia de fumaça, aquele homem, - que eu nem sei quem é e da aonde veio e pra onde vai -, olhava pra estrada, e a estrada olhava pra ele. O homem sabia das coisas. "Já tinha sacado a vida". E vivia. "Dean Moriarrrrrty passô uma veiz cum os passos dele mêmo por essa estrada tudinha ." E eu ouvia, porque, na verdade, ninguém podia dizer que aquilo era mentira.

E aí você queria estar com um gravador nas mãos, pra tirar tudo daquele homem e mostrar pro mundo. Da onde ele veio, por onde ele andou, pra onde ele vai. Pela cára, foi um sujeito pé-de-vento, daqueles iguais ao próprio Dean.

Mas os docinhos caseiros já estavam na sacola, era hora de partir. E como eu queria ficar! Ou então, levar aquele pé-de-vento comigo, quem sabe. Mas o lugar de pessoas como ele, é na estrada mesmo, daquele jeito.

Não tenho nem uma foto, - ele não gosta dos flash's -, só uma testemunha que nem conta muito, porque, estava comprando doces e não repara em nada nem em ninguém. Mas eu não esqueço. E, como nem sei o nome do sujeito, botei-lhe o nome de Dean.

Era hora de ir embora. "Tchau, fique em paz, e de olho na estrada caso o Moriarty apareça, haha!". Me despedi.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Made in Brazil - 1954

"Capoeira pra estrangeiro, meu irmão, é mato.
Capoeira brasileira, meu compadre, é de matar!"
video

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Horário nobre

(Tamy Fernandes)

"Veículo ágil, versátil, moderno e verdadeiramente acolhedor". Tal frase não faz parte de nenhum anúncio publicitário lançando algum modelo novo de automóvel no mercado, mas descreve exatamente a apinião de Bruno Giordani, 17 anos, estudante de moda, sobre o que é a TV atualmente.

Além dele, milhares de jovens, crianças, adultos e até mesmo a chamada "geração experiente", acompanham dia-a-dia a programação televisiva.

De fato, acompanhar tal programação todos os dias não se faz tão preocupante, o problema, é que a maioria das pessoas confunde vida com novela.

Isso só acontece porque o poder de exibir ou ocultar imagens e informações está nas mãos de poucos, e desse pouco que governa a mídia, todos agem em prol do mesmo interesse: moldar telespectadores. Na teoria, esse interesse parece ser inalcançável, porém, na prática, isso ocorre sem nenhum impedimento, á medida que nos dias de hoje, dificilmente vejamos alguém que não tenha um aparelho de TV em casa.

Como dizia a letra de Leci Brandão: "Na hora que a televisão brasileira distrái toda gente com a sua novela, o Zé do Caroço batalha, o Zé do Caroço trabalha e malha o preço na feira". O Brasil é feito de milhares de "Zés do Caroço", e a todos eles são direcionadas programações controladas.

Algo que os faça esquecer de todo problema político-social brasileiro, dos salários baixos, da fome e do desemprego, e os faça acreditar que, realmente, a vida é uma novela.

A TV manipulada desvia os olhos da sociedade dos problemas públicos e os coloca diretamente nos monitores dos aparelhos de TV.

A solução para o problema seria abrir portas para o povo. E dar espaço ao povo, não significa dar um papel principal a um cidadão comum em uma novela, mas sim dar acesso a esse indivíduo na produção da TV. Aí sim seriam os valores do povo na tela, e não os valores impostos ao povo pela tela.

Por mais justa que pareça tal teoria, na prática, o sonho de uma TV sem manipulação é quase que impossível de se realizar. Uma sociedade sem imprensa, por exemplo, é algo impensável.

Se não manipulada, a TV seria a porta voz do povo. Enquanto isso não acontece, o povo vai ficando, e cada dia mais, sem voz.

Mais do que globalizados, estamos, demasiadamente, "Globalizados".

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

SE

(Tamy Fernandes)

Continuo correndo cansado, cambaleando certamente, contudo, continuo correndo, - calma cavalheiro! cuidado! -, continuo correndo. Curva. Cavalo - "clap clap clap". Campos. Colheita. Camponeses. Capangas calados cutucando coitados. Continuo correndo, - calma cavalheiro! cuidado! -, corro, corro, corro. Curva. Casa cuidadosamante coberta. Campos - café! -, colhendo: corpos calejados. Comerciante chamando criado:
- Compra café?
- Capaz!
Criado cai choramingando. Chicote. Corte. Cicatriz. Comerciante chamando:
- Compra café cretino? - cuspiu.
- Claro!
Criado cuidadosamente criado.
Continuo correndo, - calma cavalheiro! cuidado! -, corro, corro, corro. Cansei. Cachimbo. Coração calmo. Corro. Corro. Corro. Curva. Campos concentrados. Cadáveres. Cascas. Cicatrizes. Canhões. Carabinas. Corpos caídos. Chefe chamando:
- Cale-se Comunista!
Coração cortado! Cotinuo correndo, corro, corro, corro, - calma cavalheiro! cuidado!. Curva. Calçada. Crianças. Cabisbaixas. Caixas. Choro. Cocaína. Costas curvadas. Criança chamando:
- Cadê comida?
Continuo correndo. Crentes caminham, cruzes, crucificsos. Cristão chamando:
- Cristo?
- Calúnia camarada!
Crente chocado. Continuo correndo. Casas. Clubes. Comércio. Comerciantes. Coca-Cola. Carros. Criaturas. Consumo. Criaturas consumindo. Consumo consumindo criaturas. Cabeças codificadas. Capital. Capitalismo. Capitalistas. CO², - "cof cof cof " -, CO², chuva, CO², chuva. Crosta. Capitalismo cantarolando. Comerciantes cobrando. Consumo. Coca-Cola, - "cool!". Capitalismo cercando cabeças. Civilização. Coisa cruel!
- CARAMBA!!!

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Grande pequeno público ou o meu lado pessimista

(Francisco Romero)

Certa vez no ensino médio me foi proposto o seguinte tema “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Comum ouvirmos esta frase, principalmente numa sociedade imagética como a nossa, ou seja, baseada mais nas imagens do que na escrita. Admiro esta frase e gosto das imagens, muito! É fascinante contemplar uma imagem bonita, seja ao vivo ou pela tela do micro. Há, também, as imagens impactantes dos noticiários que entram em nossas casas diariamente, a TV nos lança avalanches de imagens todos os dias, as que mostram catástrofes são retomadas e comentadas no dia seguinte. Há imagens que são consideradas por alguns como obras de arte, é o caso das fotografias de Sebastião Salgado que registram aspectos sociais e culturais do povo brasileiro, direcionam para a reflexão.

Retomando a minha tarefa de arquitetar uma redação com o tema proposto pelo professor, não lembro o que produzi, talvez tenha sido uma redação medíocre, de um aluno não muito comprometido com os estudos. No entanto, o tema não se esgotou naquele dia, penso constantemente nessa idéia, muitas vezes quando estou preparando uma aula, seja para mostrar imagens ou para discutir sobre elas, como faço agora. Por mais que não me lembre dos resultados de meus escritos penso que deve ter sido uma incoerência propositalmente lançada pelo mestre, mas por que incoerência? Pense, para escrever sobre este pensamento é preciso dominar algumas palavras, talvez mil, talvez não, mas pelo menos saber usá-las. As palavras são ferramentas valiosas para ver, interpretar e criticar o mundo. Claro que existem outras maneiras para tal interpretação, existem comunidades tribais que não possui escrita, mas as palavras grudam nas crianças, proporcionando uma memória incrível, como ferramentas. Além disso, no Brasil, temos um índice grande de analfabetismo, fenômeno este que traz outras possibilidades de interpretação e/ou limitações da realidade. Como professor, me interessa escavar os significados das leituras de imagens e de textos e, principalmente, do sentido que faz ou deixa de fazer para os estudantes do ensino médio.

Sinceramente, vibro quando sou questionado por alunos que buscam acessar os temas desenvolvidos em sala de aula e percebo vontade de potência exalando do jovem, isso potencializa minhas vontades, românticas, utópicas, mas quentes, não mornas! Mas tem outro lado, claro. A apatia também permeia entre os jovens e não há um culpado, mas vários. Gosto de uma frase que um mestre me lançou; “a escola é um espaço de contradições!”, de fato. Temos punições, correções, limitações, contenções, clientela -! -, padronizações, horários, burocracias, sinal e afins. Porém, há alguns espaços, geográficos ou não, onde a discussão pode nos levar a experimentações brilhantes, por vezes libertárias, nômades. Essa fagulha me inspira – fagulha (possibilidade: estalo, fogo, brasa, fumaça). Quem se doa a este ofício pode incendiar como pode se queimar, é o risco, não o nego, enfrento, continua sendo minha opção por mais que às vezes me sinta falando para poucos – faísca, estalo, contradições.

Por esses dias desci das escadas da utopia e me lembrei que a escola também é reflexo da sociedade, óbvio, mas as vezes esqueço. A sociedade de massa está na sala de aula, homogênea, uniforme e coesa, triste. Não sou pessimista – não muito – acredito no heterogêneo, mas por esses dias pensei mais pela ótica pessimista, confesso. Lembrei da obra, “Cultura de massas no século XX”, de Edgar Morin (1969) pensador da cultura. Ele descreve o surgimento do Grande Público, decorrente dos meios de comunicação de massa, criação do uníssono. Esta linguagem global é criada para dar conta de muitas pessoas, diferentes em diversos aspectos (econômicos, sociais, culturais), mas que terão acesso a um padrão, o da mídia. Não serei maniqueísta, mas esta diversidade vai se esboroando na criação do pensamento único. Morin destaca o principal objetivo desta cultura de massa: o lucro. A referência ao conceito de indústria cultural – caro ao filósofo Adorno – é explícita, pensemos nas produções em série de notícias, músicas, filmes e outros entretenimentos. Esta mídia tenta atingir a todos, e para isso certa linguagem deve ser criada e a cultura passa a ser nutrida nos espectadores, apreciadores. Esta linguagem não surge do nada, seu substrato é a realidade e seu produto, o imaginário. Os filmes apresentam a idéia do Happy End (final feliz), e não sei o porquê, mas lembrei da música de Zeca Baleiro que diz “favela não é hotel, vida não é novela...”.

O imaginário é pontuado de questões midiáticas e certo entendimento único vai sendo criado, como já destaquei. Além da expectativa do final feliz, do bem vence o mal, entre outros maniqueísmos correntes, há um anseio pelo novo. Como assim? Bom, principalmente no Brasil, país que valoriza a inovação e rejeita o velho, um filme que tenha mais de um ano se torna obsoleto. Nesta questão lembro-me de meus alunos. Basta ligar o projetor na sala para ouvir a pergunta “é filme velho?”. Respondo com uma indagação, “como assim? Não entendi”. Claro que captei o sentido: “este filme é daqueles velhos, que não tem uma estética nova e apresenta personagens com cabelos engraçados?”. O estudante já pressupõe que vai ser um saco a apresentação, “nada a ver”. Pois bem, neste ponto parece que tudo que foge do conhecido é repelido. Não é comédia romântica, não é besteirol, não é erótico (num sentido banal da mídia aberta), não tem efeitos especiais, não tem sangue espirrando, então, não presta! É incrível como parece existir um molde que impede um público de apreender novas experiências. Muitas são as contradições, pois há uma repetição do novo, poucas experimentações, a última banda da moda é parecida com a anterior, assim como a última comédia romântica, o molde é semelhante. Eu avisei, estou pessimista. Mas a contradição que achei mais interessante, nesse âmbito, foi a que li de um articulista, que afirmava que em nosso país, que apenas se valoriza o novo, tornamo-nos um país do passado, porque não tem memória, porque repete os mesmos erros (vide Senado).

A criação da grande mídia possibilita maior acesso... encerro aqui, não estou espirituoso, deixo este parágrafo para outro dia.

Há a ilusão de estar-se inovando quando se rejeita o velho, besteira. Não se sabe nem o que é o velho, não existe palavras para descrevê-lo, o repertório é raso (faisquinha). A imagem não é interpretada, é passada “guela a baixo”, sem reflexão – consuma! Inove! Doce espetáculo, doce ditadura.

O filósofo Kant (1724-1804) ao tentar resolver o problema da teoria do conhecimento (embate entre racionalistas e empiristas) afirmou que o ser humano não nasce com a razão, nem que a experiência em si possibilita chegar à verdade. Para ele, nascemos com um equipamento para apreender o conteúdo do mundo através da experiência, ou seja, razão e experiência caminham juntas. Para exemplificar, pensemos naquele que nasceu cego e a recobra aos 40 anos: olhará, mas não entenderá o que está a sua frente, mesmo que seja a habitual escova de dente. Ele possui o equipamento, mas não tem a experiência. Esta ideia foi desenvolvida no filme “A primeira vista” (1999), do diretor Irwin Winkler. De fato, os equipamentos de sentidos podem ou não se desenvolver. Não precisa ser cego para ter o sentido atrofiado.

Assim, às vezes penso que há uma espécie de ‘inovação repetida’, ou seja, busca-se o novo, mas dentro de um espaço restrito. As experimentações cessam, caminhos homogêneos e medíocres substituem as energias rebeldes criativas, inovadoras, de vir. Uma imagem pode valer mais que mil palavras, mas se não há desenvolvimento do repertório, se utilizará sempre as mesmas mil palavras, se tanto.


(Ao autor: muito obrigada pelas palavras emprestadas!).

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Sem palavras

(Tamy Fernandes)"A palavra é metade de quem a pronuncia, metade de quem a ouve." Um dia, Michel de Montaigne, filósofo francês, uniu treze palavras e montou tal frase. Mas, antes de serem escritas, Montaigne pensou em cada uma delas, e as treze, uma a uma, foram saindo de sua boca, para só mais tarde, repousarem em uma das páginas de sua coletânea de pensamentos. Michel de Montaigne tinha razão.
As palavras são as pontes que levam a informação, a emoção, a poesia e até a música, de um indivíduo a outro. Trata-se da linguagem como aproximadora de universos.

É difícil imaginarmos, nos dias de hoje em particular, uma forma rápida e eficaz de comunicação, sem fazer uso das palavras. O uso da linguagem se faz presente 24 horas por dia.

Linguagens verbais, virtuais ou escritas, unem-se com o mesmo propósito: a transmissão de uma ideia. E ao serem transmitidas, as palavras ganham tanta força, que podem, por muitas vezes, se tornarem perigosas - Hitler e Mussoluni, por exemplo, sabiam conduzi-las tão bem, que acabaram, indiretamente, matando milhões de pessoas.

Se avaliado, o conceito de que "uma imagem vale mais do que mil palavras", vem por água abaixo, á medida que uma boa imagem se faz também da capacidade do bom uso das palavras. Elas têm sim, o poder de "embelezar" as pessoas. A boa comunicação é tão estimulante quanto café puro.

Podemos observar mais de perto a importância da linguagem no aprendizado e alfabetização de uma criança, por exemplo. Ainda que as palavras não sejam reproduzidas na sua mais perfeita sonoridade, as crianças conseguem ainda assim, assimilar a palavra ao objeto, constróem frases curtas, pedem ou recusam, através das palavras, que passam a ser desenvolvidas e aprimoradas dia após dia.

As palavras, nos seus mais variados usos, são indispensáveis. E não é preciso ocupar uma cadeira na Academia de Letras para amá-las. Basta estar vivo para entender o quão preciosas são, porque a vida meu caro, seja a mais simples ou a mais embaraçosa, se resolve com palavras.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Linha 77

(Tamy F.)

Jack estava sentado no último banco do ônibus que ia de Leesburg rumo á Fawcett City. Olhava para os próprios pés o tempo todo, e não movia sequer os dedos da mão. Estava frio em Leesburg quando ele deixou a estação e subiu cambaleando no ônibus da linha 77. Pisou o primeiro degrau com o pé esquerdo, o segundo, o pé direito levantou do asfalto, tocou o degrau, mais uma vez o pé esquerdo entrou em cena, o terceiro degrau, pronto, Jack estava dentro do ônibus. Logo que entrou, ainda de pé, sentiu o cheiro de suor daqueles trabalhadores que voltavam das fábricas, das fábricas de gente, de mente e de corpo. Pequenos robôs que suavam frio dentro daquele ônibus. Fora os trabalhadores, umas moças de uns vinte e sete anos sentavam perto da janela. Eram três. Duas loiras e uma coreana. Jack disse ao policial em Fawcett City, que as moças cheiravam a açúcar queimado.
Não havia um lugar vago no ônibus. Jack olhou em volta, nada. Ficou alí, parado no meio do assoalho metálico e sujo da linha 77. Quatro minutos, um barulho de tosse veio do fundo do ônibus. Jack olhou. Um andarilho, maltrapilho, sujo e anônimo como um cão atropelado. Jack saiu do lugar onde estava estacionado a quatro minutos, deu um passo, dois, mais um passo, quatro, cinco, outro, sete, o último. Lá estava Jack de pé, em frente ao homem-maltrapilho e sua sacola marrom no banco ao lado. O maltrapilho ergueu os olhos negros e encontrou os azuis de Jack Hassan. A voz do americano, tão maltrapilho e sujo quanto ao próprio maltrapilho que acabara de conhecer, saiu de sua garganta:
- Posso? - disse com o dedo indicador da mão direita apontado para a sacola marrom daquele homem-lixo.
Não ouviu a resposta. O maltrapilho gemia. Jack pegou a sacola, - era leve -, sentou, cruzou as pernas e a sacola veio repousar naqueles ossos compridos cobertos por um jeans surrado. O maltrapilho gemia. Jack tossiu:
- Não se preocupe, sua sacola está bem confortável aqui. - Riu.
O maltrapilho gemia. Jack não desistiu:
- O que tem aqui? É bem leve.
O maltrapilho, entre mais um gemido e uma tosse, respondeu:
- Papéis.
- Papéis? - não podia deixar o maltrapilho se calar de novo.
- Não me ouviu?
- Sim, claro, perfeitamente. Só achei curioso carregar papéis. - Jack engoliu a saliva acumulada na boca.
O maltrapilho calou-se. Jack também.
O ônibus parou, um homem alto e forte subiu. Usava um terno preto, sapatos de couro e uma maleta. O maltrapilho gemia. O homem procurou um lugar vago, nada. Olhou para o fundo do ônibus. Olhou para Jack, depois, para o maltrapilho. Caminhou. Passos largos. O sapato, ''toc toc toc'' no assoalho metálico. O maltrapilho gemia. O homem parou:
- Por favor cavalheiro...
O maltrapilho levantou, arrastou os pés imundos, olhou para a sacola, depois para Jack, gemeu, apertou a campanhia, o ônibus parou, uma última olhada para a sacola, um degrau, dois, três, desceu.
O homem de terno tirou um lenço do bolso, limpou o banco, sentou. Jack olhou para a sacola marrom, dois segundos, abriu. Papeís. Três folhas amareladas. O ônibus freou, Jack derrubou as folhas. Abaixou, e lá de baixo viu todos aqueles homens, mulheres, velhos e crianças olhando para ele. Todos olhando para ele. Todos aqueles homens bem sucedidos, e aquelas mulheres vazias, as crianças mimadas e os velhos fanáticos, olhando para ele. Jack ficou pálido, "eles viram a arma na minha cintura, sim a arma está aparecendo", pensou. Ainda curvado para frente, Jack leu naquelas folhas amareladas, uma frase de Platão, "uma vida não questionada não merece ser vivida". Jack sabia o porquê de estar alí, sabia desde quando entrou naquele ônibus na estação em Leesburg. "Uma vida não questionada não merece ser vivida". Jack levantou, - a essa hora todos aqueles homens-dinheiro, mulheres-dinheiro, crianças-dinheiro e velhos-dinheiro já estavam gritando. Jack pegou a arma, dedo no gatilho, tiros. Não sobrou ninguém no ônibus, os que não foram atingidos, correram. Jack voltou ao fundo do ônibus, sentou. Vinte minutos e a polícia estava lá. Algemas. Câmeras, jornalistas, polícia, políticos, multidão, massa, homogeineidade. Um rebanho de homens e mulheres, - e cabe dizer que todos eles estavam dizendo que a violência que alí acontecera, foi consequência das drogas, do álcool, das armas, daquele jovem maluco -, corriam de um lado para o outro. Jack parou, olhou para o rebanho. Gritou:
- Vocês são rebanhos nessa terra! Todos vocês! Governados, manipulados e cegos! - Jack já estava rouco.
Um policial sacou a arma, "bang!", Jack caiu. Pronto, menos uma voz crítica no mundo da política.
O maltrapilho gemia, do outro lado da rua, sentado na calçada. Gemia, tosse, tosse, gemia. A mão trêmula escrevia sua última frase, "não há nada de errado com aqueles que não gostam de política...", gemia, mais tosses, agora com falta de ar, "... simplismente serão governados por aqueles que gostam". O maltrapilho pôs um ponto final ao texto de quinze linhas que tinha ganhado vida, alí mesmo, na calçada. E como todo ''Final Feliz do Curral Político", a ovelha negra desgarrada do rebanho, morreu.
Jack Hassan, 19 anos, jogador de beisebol nos fins de semana, colecionador de carros antigos e tampas de garrafa; não comia carne, não bebia nem fumava, mas - que estupidez! -, gostava de política.

De punhos fechados

(Tamy Fernandes)

Sala de aula, carteiras enfileiradas frente ao quadro negro, várias vozes vindas de jovens uniformizados preenchem o ambiente, um dedo apontado para uma cabeça pousada sobre a carteira indica como uma seta o alvo a ser atingido. Um cenário perfeito para o bullying atuar. Pena não se tratar apenas de uma peça teatral, onde vilões e vítimas, acabam de mãos dadas agradecendo os aplausos da platéia ao final.
Bullying é um termo inglês utilizado para descrever atos de violência, física ou psicológica, praticados por um ou mais indivíduos, com o objetivo de agredir ou ridicularizar outro indivíduo mais fragilizado dentro de um ambiente escolar.
Além das consequências para a vítima que sofre desse mal, o que mais preocupa são as dimensões que essa prática vem tomando. Estudantes com menos de dez anos de idade, já se reúnem em grandes ou pequenos grupos, para agredir ou gozar de um outro colega incapaz de se defender. A garota de óculos, caminha sempre cabisbaixa com os olhos voltados para os próprios pés, o garoto gordinho, é visto sempre agasalhado em um suéter grosso, o rapaz tímido num canto do pátio, o baixinho, o fraquinho, o mais alto, o mais magro, este ou aquele são apontados negativamente como portadores de qualquer característica, seja ela física ou não, que os levem a ser intimidados e excluídos do meio social em que vivem.
Podemos notar ações semelhantes num ambiente de trabalho, - o chamado mobbing -, onde a vítima sofre desde assédios até humilhações vindas de colegas ou chefes, ambos com o intuito de rebaixar ou até mesmo eliminar este indivíduo de possíveis concorrências ou ocupações de cargos mais altos.
A solução para estes problemas é mais complexa do que se imagina. Antes de se estabelecerem métodos anti-agressões, é necessário que haja o conhecimento, por parte de pais e professores, sobre seus próprios filhos e alunos, possibilitando assim, uma identificação adiantada de qualquer possível surgimento de um receptor ou praticante de bullying. A cooperação dos alunos também é fundamental no combate á prática dessas ações.
E o mais importante: manter um diálogo aberto e debates sobre o tema em escolas, trabalho e casa.
A solução de fato, não está na cura, mas sim na famosa e eficiente prevenção.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Espinho inflamado

(Tamy Fernandes)

Certa vez, nas primeiras páginas de um livro - e não era um livro que possa ser comparado com qualquer outro -, lí sobre Nathanael West e seu espinho no dedo, que só doía quando escrevia.

Fiquei pensando, como seria ter um espinho desses cravado bem no meio do dedo de um escritor. Devia incomodar de fato, e justamente por isso, as histórias ficavam tão boas.

De todos os autores que conheci, (e não se faz necessário dizer que foram através de suas obras, sim?) creio que alguns deles, e são poucos sim mas, tinham vários espinhos bem debaixo das unhas, e todos muito inflamados. O dedo deles devia sangrar, talvez por isso a cada página virada, um gosto de sangue me subia á boca, e eu sentia todos aqueles espinhos riscando minha língua.

Com a boca cheia do sangue do Palahniuk, Malcolm Lowry, Nietzche, Gogol, Bukowsky, Kerouac, eu cuspia tudo de volta naquelas páginas, e os espinhos voltavam para debaixo das unhas de todos eles.

De vez em quando, um espinho caído sobre alguma página, escorregava e ia parar debaixo da minha unha. Nessa hora, virar aquelas páginas todas, doía. Os espinhos inflamados doíam nos autores, doíam nos leitores. E o primeiro grupo fazia isso de propósito. Eram tão inteligentes que, sem muitos esforços, sacaram que aqueles famosos ''soco no estômago'' da sociedade já estava demasiadamente banalizado. O negócio era investir nos espinhos.

Você só sente um soco quando fecha o livro, é a doce despedida do autor diretamente no seu estômago cheio de caviar e champagne importada. Agora, um espinho, entra debaixo da sua pele logo na primeira página e só vai sair de lá se você amputar o dedo. Por isso todos tem medo desse tipo de literatura; tanto medo que andam de luvas pelas bibliotecas.

Alguns autores, de tão bons, tornaram-se o próprio espinho. Vieram deles todos aqueles livros arranhados, furados e moribundos. Vieram deles, todos aqueles livros, que te agarram pelo colarinho e ameaçam cravar um espinho bem no meio da sua garganta.

Os livros, são campos de batalha meu caro, ou você luta, ou vai pro inferno sem nenhuma cicatriz de espinho cravado.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Novas fotos!

Sim, mais fotos foram parar no Flickr.

domingo, 6 de setembro de 2009

Kurumaném

(Tamy Fernandes)

Pero Vaz de Caminha estava ao meu lado. Á minha direita, para ser mais exato.

O português olhava compenetrado por entre a mata que acabara de descobrir. Seus homens, todos vestidos de um pano fino de seda, me analisavam dos pés a cabeça, como se o índio daquela terra, fosse eu.

O ar naquele dia estava tão fresco, que podíamos ouvir o vento susurrando em nossos ouvidos. Tudo era feito de silêncio e verde, muito verde, como deveria de ser.

Pero Vaz de Caminha era o nosso chefe. Guiava-nos pela mata que, nem mesmo ele, conhecia. Por sinal, ele parecia entre todos que alí estavam, ser o mais desorientado. Deus do céu, ele estava tão confuso!

Caminhamos. Horas e horas, todos nós, caminhamos.

Os portugueses cruzavam a mata todos os dias em direção a uma aldeia de nativos, todos muito assustados, chamada Tupinambá. Desde o descobrimento da nova terra que eles, os portugueses, só faziam isso: idas e vindas com caixas e mais caixas de objetos europeus.

Quanto aos nativos, ora estavam correndo com suas vergonhas de fora, ora estavam correndo atrás daqueles portugueses sem vergonhas!

Pobre daqueles nativos. Aceitavam tudo o que lhes era dado, por mera, e natural é claro, curiosidade. Eu sempre via algumas crianças, sim todas nuas, correndo com espelhos nas mãos e rindo toda vez que a imagem daqueles rostinhos morenos e pintados de vermelho refletia no objeto.

O chefe da aldeia chamava-se Kurumaném, e aparentava ter uns setenta anos. Não falava muito e, raramente, podíamos vê-lo andando pela aldeia.

Um dia porém, sentado num tronco de árvore, eu olhava distraído para um grupo de nativos que trazia da mata uma cesta lotada de urucum, quando ví aquele homem rígido de aparentáveis setenta anos, andando com um passo mais acelerado que o de costume, trazendo nas mãos um sapato de couro preto. Além do calçado, trazia estampado no rosto selvagem, um sorriso amarelado. Atrás dele, vinham dois portugueses mandando-o, através de gestos exagerados, calçar o ''presente''.

O selvagem ainda de pé, passou o objeto da mão direita para a esquerda, e num esforço quase que inútil, calçou-o. Deu três passos. Abaixou-se. Os portugueses riam e batiam palmas. Abaixado, o selvagem arrancou do pé o sapato e, olhando para o céu com o sorriso amarelado estampado na cára, atirou-o num movimento tão forte que, até hoje, os portugueses acreditam que o primeiro homem a pisar na lua, foi sem dúvida, aquele nativo.

sábado, 5 de setembro de 2009

Liberdade: um sonho humano

(Tamy Fernandes)

"Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda." A palavra de sentido inalcançável de Cecília Maireles continua, e desde sempre, sendo alimentada por infinitos sonhos humanos.

Ora por homens religiosos, sonhando com a liberdade de culto ao seu deus, ora por homens ateus, sonhando com a liberdade de simplismente não crer e serem, ainda sim, respeitados. Homens negros, escravos, gritando a liberdade nos ouvidos de seus senhores. Homens presos, enjaulados, implorando liberdade a seus juizes. Até mesmo nosso Brasil-Colônia comemorava, em 1822, a liberdade concedida por Portugal. Afinal, o que é essa tal liberdade?

Utopia talvez. Ou, quem sabe, uma palavra posta no dicionário para confrontar, e instigar, homens e mulheres rodeados por leis, sistemas, crenças, correntes e o medo, esse sim, o maior veneno contra a liberdade e os que sonham com ela.

Essa palavra tão grande em sua essência, e ainda assim indecifrável, faz-se pequena quando posta de frente ao medo que, nós, os humanos sonhadores, também alimentamos, encolhe-se e, cabisbaixa, escorre sempre e sempre dos dedos que pareciam agarrá-la.

O medo de quebrar regras, recusar leis, criticar opiniões, descartar sistemas, duvidar de crenças, e tantas outras ações, faz com que sonhemos, e só sonhemos, com o dia em que poderemos abraçar a liberdade. Eis enfim, o grande problema.

A liberdade é a imagem refletida de um espelho chamado oportunidade. O homem enxerga sua liberdade no poder de escolha. Na autonomia de dizer sim ou não.

Iludem-se aí os "homens livres", pois até mesmo essas escolhas que lhes dão a ideia de liberdade, só são escolhas porque vieram de perguntas, estas feitas (e cabe salientar) por terceiros. Perguntas e respostas de um reality show chamado Capitalismo Selvagem.

E dentre as respostas e as perguntas, a liberdade, tão violenta e tão delicada, será sempre para o primeiro, o que questiona, a pergunta, e mais: a chance de continuar perguntando, pois para o segundo, o que responde, a resposta será sempre a sua (falsa) "liberdade".