quinta-feira, 29 de outubro de 2009

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A rua

(Tamy Fernandes)

Sou louca pelas pessoas loucas.
Loucas para viver, loucas para falar, loucas para sentir, loucas para olhar, loucas para amar.
Confio nas pessoas que ardem, ardem, ardem como fogos de artifício no céu vazio.
Gosto das pessoas viradas ao avesso. Amo suas almas e suas cabeças.
Sou amante das ruas. Do asfalto, do cimento, dos tijolos e dos operários suados e tristes.
Amo os olhos infantis e toda sua inocência. Gosto dos bagunçados, dos sem planos, dos sem relógio, dos sem teto, dos sem ódio, dos sem dinheiro, dos sem sistema, dos sem isso e dos sem aquilo.
Não tenho pressa. Não rastejo nem corro.
Sou amante das ruas e de seus habitantes andarilhos. Pés de vento.
Amo as palavras e seus falantes. As palavras corrosivas. Os livros. O cérebro em forma de letra.
Sou amante das ruas e dos pés que a pisam noite e dia. Dia e noite. De tarde, a rua arde.
Amo os pés.
Gosto de quem anda, de quem não senta, de quem não lamenta olhando o umbigo. Amo os sem regras. Os poetas, os artistas, os desgarrados.
Sou amante das ruas sujas e verdadeiras. Das calçadas estreitas. Das lombadas feita de gente.
Sou amante das ruas e por isso faço o contorno na avenida e amo todos os rostos e cheiros que sinto.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Empregadinho de poeta

Poetinha vagabundo.
Não tira os pés da sandália, não abotoa a camisa, não lava as calças.
Nem dorme, nem sonha, nem levanta e nem senta.
Poetinha vagabundo que não se aposenta.

Joga-se na cadeira ( é de madeira) e acende um cigarro.
Deixa a janela fechada que tem gente á espreita.
Aproveita e estica essas pernas cansadas
que eu mesmo pego tuas sandálias e guardo.

Põe o violão maltratado no colo e arranha essas cordas
com esses teus dedos manchados de tinta.
Deixa que as cinzas desse teu cigarro
eu mesmo varro.

Abotoa essa camisa que teu peito fica vermelho depois do meio dia.
Poetinha vagabundo que nem me dá ouvidos.
O violão cansado, caindo e chorando, e esse teu afago de poeta
preocupado.

Deixa derreter o gelo desse teu uísque, velho afobado!
E tira o violão de cima da mesa que o luger dele
é no seu colo!
Poetinha vagabundo. Seca o copo e enxuga os olhos.

Agora deita e dorme homem, que ninguém para
em pé com tanta coisa na cabeça. Descansa!
Amanhã você me fala Vinicius, mas agora me obedece
que você já não é mais criança.

(Tamy Fernandes)



domingo, 11 de outubro de 2009

Fotos novas! Sofrimentos velhos!

Já sabem, é por aqui: www.flickr.com/tamy_fernandes

Não vejam só com os olhos.
O nome dela é Maria. É brasileira. Filha de pais escravos e mãe de cinco crianças magras e sujas.
Quando pode, coloca um quilo de feijão na panela. Mas quando as coisas ficam difíceis, e as cinco criançinhas choram de fome, Maria pensa até mesmo em roubar. Não dinheiro, nem o povo, nem os cofres. Mas só um quilo de feijão. Só para enganar as bocas famintas de suas crianças.
Mas no mesmo instante Maria recua, ela sabe, todos sabem: quem rouba feijão vai preso. E ficar atrás das grades, com cinco crianças para criar, é só o que Maria não quer. Então ela tem de esperar até que alguém bata a sua porta e lhe entregue um quilinho de feijão. Mas isso nunca acontece.
Aí Maria precisa pôr seus cinco filhos sofridos nas ruas de São Paulo, pedindo dinheiro para comprar comida. E ela os orienta para que tomem cuidado com os carros, que fiquem atentos ao trânsito, é perigoso, e ela sabe disso.
E lá vão os cinco pequenos. Mas são pequenos e têm medo. Os carros voam, os sinais mudam de cor, e as crianças choram. O mais corajoso tem apenas 8 anos. Já alcança o vidro do carro. Mas os motoristas são mais rápidos que aquelas mãozinhas encardidas, e os vidros, sempre blindados, não descem. "Essas crianças acomodadas! Podiam estar estudando se quisessem, podiam ter uma vida melhor se quisessem, podiam até mesmo trabalhar futuramente se quisessem!". Mas é claro que as crianças da Maria não querem nada disso! Elas gostam de sentir o estômago vazio todos os dias, e tocar o asfalto com os pés descalços, e certamente não têm tempo para essa história de estudar.
Os pequenos, todos cansadinhos, voltam para os cuidados da Maria. Mas ela também está muito cansada. Todos estão muito cansados. Marias e Josés, todos muito cansados. É uma pena, não? Se todos eles não estivessem tão cansados assim, poderiam até aproveitar esse Brasil da ordem e do progresso, não? É uma pena sim, estarem tão cansados esses Josés e Marias e todas as suas criançinhas.

(Tamy Fernandes)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

(Tamy Fernandes)

Numa tarde de quarta-feira, entre 13:40 e 17:00, enquanto caminhava despretenciosamente pelas ruas e calçadas da cidade - como sempre faço toda quarta-feira -, resolvi contar por quantos "capitalizados" e por quantos "marginalizados" eu passava. Queria contar todos aqueles rostos sem ter de debruçar-me sobre uma mesa e traçar escalas e gráficos aqui e alí.
Logo na primeira rua, contei 1 cachorro vira-lata e 2 maltrapilhos tão sujos quanto o cão. E que engraçado né camaradinhas: os 3 reviravam o mesmo lixo.
Três ruas abaixo e eu já havia contado mais de 20 capitalizados. Parece muito, mas muito mesmo, foram os números de crianças descalças perambulando as ruas com caixinhas de doces nas mãos. Não camaradinhas, elas não estavam comendo os doces, não mesmo! Havia também um senhor de uns aparentes 70 anos, que sentado num meio-fio, resmungava algo para sí mesmo. É claro que ele não falava em voz alta. Os anos em que ficou gritando, pedindo socorro, lhe feriram a garganta. Agora, os lamentos seguem em voz baixa. E quem quiser ouví-los, terá de encostar a orelha bem perto daquela boca faminta, e terá além do mais, que se curvar, porque o homem de tão sofrido já pendia a cabeça corpo abaixo. Pobre homem! Ele já sabe que a burguesia não se curva.
Quando passei por ele, olhei bem para o seu rosto e, acreditem, tinha cor de terra pisada, - e não preciso dizer de quem foram os pés que marcaram o rosto daquele homem, sim?.
Eu já estava andando por mais de 1 hora. E como era de se esperar, eu já havia perdido a conta de quantos rostos indiferentes haviam passado por mim. Foram tantos, que... ah, é uma pena!
Se calculado, - e vamos tentar os números, já que as imagens por sí só não comovem á ninguém -, o número de desolados multiplicado pelos dias da semana, vamos obter um número de aproximadamente, 35 seres humanos maltratados de segunda á segunda. E, multiplicando isso por 365 dias, tenho certeza que o número ultrapassa o valor do último carro importado, da mensalidade da escola, das bolsas e carteiras de couro, do tapete italiano...sim sim.
Estava muito quente hoje, não? Mas tinha uma mulher com um suéter vermelho de lã puxando um carrinho de ferro cheio de papelão. E ví também um homem deitado numa porta com uma manta grossa cobrindo o rosto. Mas estava muito quente hoje, não?
Não andei até ás 17:00. Perambulei até ás 15:45 exatamente. Comprei uma garrafa de água e fui pra casa. E, apesar de não morrer de amores pela matemática, eu fui fazendo meus cálculos.
Talvés seja essa a sacada: os números. As pessoas gostam de números. Literalmente.

sábado, 3 de outubro de 2009

Sr. Dean

(Tamy Fernandes)

Quando dizem que a estrada é a vida, a gente nem dá bola, até que um dia, na estrada, aparece alguém pra te fazer acreditar de uma vez por todas nisso. Chega a ser engraçado - e fascinante.

Quem diria que num sábado tão sem graça como o de hoje, algum homem de 50 anos fosse te dizer que Dean Moriarty passou naquela estrada um dia pedindo carona, de calça jeans e uma camiseta branca? Ah, e como ele botava fé naquelas palavras!

Sentado alí, num tijolinho encardido, fumando um cigarrinho de palha, os pés numa sandália de couro marrom, calças folgadas, camiseta rasgada, e uma cabeça cheia de fumaça, aquele homem, - que eu nem sei quem é e da aonde veio e pra onde vai -, olhava pra estrada, e a estrada olhava pra ele. O homem sabia das coisas. "Já tinha sacado a vida". E vivia. "Dean Moriarrrrrty passô uma veiz cum os passos dele mêmo por essa estrada tudinha ." E eu ouvia, porque, na verdade, ninguém podia dizer que aquilo era mentira.

E aí você queria estar com um gravador nas mãos, pra tirar tudo daquele homem e mostrar pro mundo. Da onde ele veio, por onde ele andou, pra onde ele vai. Pela cára, foi um sujeito pé-de-vento, daqueles iguais ao próprio Dean.

Mas os docinhos caseiros já estavam na sacola, era hora de partir. E como eu queria ficar! Ou então, levar aquele pé-de-vento comigo, quem sabe. Mas o lugar de pessoas como ele, é na estrada mesmo, daquele jeito.

Não tenho nem uma foto, - ele não gosta dos flash's -, só uma testemunha que nem conta muito, porque, estava comprando doces e não repara em nada nem em ninguém. Mas eu não esqueço. E, como nem sei o nome do sujeito, botei-lhe o nome de Dean.

Era hora de ir embora. "Tchau, fique em paz, e de olho na estrada caso o Moriarty apareça, haha!". Me despedi.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Made in Brazil - 1954

"Capoeira pra estrangeiro, meu irmão, é mato.
Capoeira brasileira, meu compadre, é de matar!"
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